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uma cerveja com as farc

Dividir a mesa de um bar durante quatro horas com cerca de sete guerrilheiros barbudos, armados com submetralhadoras, não era exatamente o que o geólogo pernambucano José Robinson Dantas, 69 anos, esperava de uma viagem a Colômbia, em 1986. Aluno de um curso avançado de interpretação de fotografia aérea e imagem de satélite, Seu Zeca, como é conhecido no calçadão da Rua da Aurora, não apenas escapou de um sequestro de proporções imprevisíveis como tomou várias cervejas com integrantes das temidas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Protagonista de uma história que ficou confinada em conversas entre amigos durante 26 anos, é um dos pouquíssimos brasileiros a ter contato direto com a organização marxista-leninista que tenta implantar o socialismo naquele país por meio de uma luta armada classificada pelo governo local como terrorismo. Funcionário da ativa do Ministério de Minas e Energia, o geólogo nunca comunicou o episódio a autoridades por achar que não era do interesse de ninguém. “A gente ia falar com quem e o quê, se não aconteceu nada? Os caras respeitaram a gente”.

A história a que Zeca deu de ombros não está documentada em lugar nenhum, mas tem pelo menos oito testemunhas de diversas nacionalidades, que também fizeram com ele o curso de nove meses de duração em Bogotá, a maior cidade da Colômbia – hoje com aproximadamente 8 milhões de pessoas. De lá saíram em excursão curricular em dois carros particulares até o Páramo de Sumapaz, uma região montanhosa nos Andes transformada em parque nacional. Um lugar de difícil acesso, de altitude beirando os 5 mil metros e natureza intocada. Perfeito não apenas para os estudos geológicos. Era também um dos esconderijos dos comandos rebeldes responsáveis por atentados e sequestros dramáticos como a da senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, que passou seis anos detida na selva.

Precavidos, os alunos dispensaram os veículos oficiais cedidos pelo governo justamente para não serem confundidos com policiais, o que seria fatal numa região apinhada de guerrilheiros. Além do pernambucano, um nicaraguense, um hondurenho, um chileno, um mexicano, um boliviano, dois peruanos e um colombiano compunham a trupe de engenheiros florestais, geógrafos, geólogos e agrônomos que se embrenhou no mato.

O trabalho de campo seguia sem problemas até que, por sugestão do instrutor, que precisava fotografar um rio, desceram até a minúscula cidade de Ambicá, localizada na base do páramo. Um dos mais experientes do grupo, José Robinson lembra do cenário desolador. “Entramos de manhã numa cidade totalmente deserta. Tudo fechado. E tinha um detalhe: todas as casas tinham claraboias, por onde os moradores podiam ver quem estava do lado de fora sem precisar sair”.
Resolveram tomar umas cervejas enquanto o instrutor registrava as imagens do rio. Com todas as portas do comércio fechadas, encontraram um morador que resolveu abrir o seu bar para o grupo de estrangeiros com sede. “Quando nós entramos fomos logo cercados pelos guerrilheiros. Chegaram num jipe, com as fardas camufladas e submetralhadora INA”.

ressaca à la farc

Da vista inspiradora do nono andar da Rua da Aurora, onde mora há quatro décadas, José Robinson dá uma pausa no relato para lembrar, entre um cigarro e outro, de um aluno em especial que não tinha gostado nada da decisão do grupo de visitar Ambicá. Antes mesmo da intervenção armada no bar, um jovem geólogo colombiano de nome Luiz, a quem todos chamavam de Lúchio, estava desconfiado e inquieto com o silêncio da cidade.
Durante os nove meses em que morou e estudou em Bogotá com a mulher e os quatro filhos ainda pequenos, Zeca tornou-se amigo próximo daquele colega de curso e de sua mulher, identificada como Ivone. As fotos da época retratam passeios alegres em família em meio a uma Bogotá robusta, bonita, porém envolta em paranoias de violência, sobretudo com os assaltos a bancos, atentados e invasões a embaixadas promovidas por guerrilheiros, além das revistas ostensivas dos policiais.

Foi nesse cenário, antes de mesmo da excursão até o Páramo de Sumapaz, que o geólogo ficou sabendo que Luiz e Ivone eram ex-guerrilheiros das Farc. “Naquela época, as Farc não tinham relação com narcotráfico. O lema deles era a Colômbia para os colombianos. Quando eles pegavam um americano ou um holandês comiam de coco. Matavam mesmo. E muitos universitários também faziam parte do braço urbano da guerrilha”, conta.

Lúchio, recorda Zeca, teria sido companheiro de cela de Tirofijo (uma tradução para “tiro certeiro”), como era chamado Manuel Marulanda Vélez, fundador e comandante chefe das Farcs, que teria morrido em 2008, vítima de um suposto ataque cardíaco. Até hoje o governo colombiano procura o corpo do líder dos guerrilheiros.
Ivone era quem orientava os deslocamentos de Zeca e sua família pelo país, indicando os locais seguros e os que deveriam ser evitados. Mesmo após o retorno da família pernambucana ao Brasil, a amizade perdurou através da troca de cartas, que durou até 1995. O contato foi perdido aos poucos, sem motivo aparente.

Na invasão ao bar, antes que o primeiro gole de cerveja descesse amargo, os rebeldes iniciaram o interrogatório: o que faziam tantos estrangeiros naquele lugar improvável? Hernan Gomez, instrutor do curso, falou sobre o objetivo do grupo e a nacionalidade de cada um, enquanto Lúchio se comunicava em códigos com os “muchachos”, como os guerrilheiros são chamados. Se entenderam enquanto Farc e ex-Farc.

“Começaram a conversar conosco e pelo nosso sotaque notaram que era verdade. Foi quando eles tomaram umas cervejas com a gente”, lembra Zeca. A desconfiança inicial descambou numa conversa de compadres sobre futebol e perguntas prosaicas sobre os países dos visitantes. O geólogo não lembra de qualquer menção dos guerrilheiros ao Brasil. No início da tarde, o comboio de geólogos e engenheiros deixou Ambicá rumo a San Pablo, onde já tinham passe livre das Farc para novos estudos regados a ressaca e alívio.

José Robinson voltou a Bogotá três anos depois para uma visita rápida. No dia de sua chegada, em agosto de 1989, o candidato a presidente da Colômbia Luís Carlos Galán foi assassinado a tiros pelo cartel do narcotráfico e o país foi surpreendido pela decretação de estado de sítio. Ironicamente, o atentado foi decisivo pra que Ingrid Betancourt, que estava na França, voltasse ao país para entrar na política e, posteriormente, ao terror do cativeiro das Farc.
Há 45 anos o geólogo da Rua da Aurora trabalha no distrito estadual do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), um órgão do Ministério de Minas e Energia com sede no Recife. Continuou viajando o país e mundo em missões geológicas, a exemplo de uma no Japão, onde localizou uma jazida de ouro depois de identificar vestígios do mineral valioso na raiz de uma planta. Por conta do limite de idade previsto em lei trabalhista, Zeca vai se aposentar até dezembro, pouco antes de completar 70 anos.

Texto: André Duarte / Foto: Zeca e seus companheiros de curso na Colômbio/Arquivo pessoal

 

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