percurso impressionista e exploratório do Recife
Na manhã de uma quarta-feira de tempo instável no Recife, quatro turistas, sendo três estrangeiros, chegam de táxi na estação de metrô do Aeroporto e dão de cara com o portão fechado. Uma greve dos funcionários mudou repentinamente os planos, e a viagem até o Centro teria que ser feita de ônibus. A travessia até o novíssimo terminal de passageiros, localizado numa área anexa à estação, não é propriamente uma tarefa confortável. A rigor, a calçada é apenas um elevado estreito entre a rua e a grade externa, permitindo a passagem de uma pessoa por vez. O grupo segue em fila e dá de cara com a bilheteria fechada, além de um ônibus parado e quase vazio na porta. Foram aconselhados a entrar no veículo, pagar a passagem, passar pela catraca, sair do ônibus e, só depois disso, teriam passe livre no terminal. “Não tinha um jeito mais fácil?”, indaga, em bom português, o economista indiano Sunil Tankha, diante de um cobrador que abre um sorriso de boca fechada. Só depois entenderam que o ônibus vazio era a bilheteria improvisada.
E assim começou o tour de Tankha, o mais jovem do quarteto, do espanhol Jordi Pardo, do inglês Mark Davy e do brasileiro Ricardo Ribenboim. Todos desembarcaram no estado há duas semanas para participar do Encontro Internacional Pernambuco Criativo na condição de palestrantes e se conheceram minutos antes, no lobby do hotel na orla do Pina. Em flancos profissionais diferentes, dedicam seu tempo a transformar cidades e, por tabela, a vida de pessoas nos cinco continentes. Dão palestras pelo mundo, executam projetos urbanísticos e culturais, prestam consultoria, desenvolvem estudos e, sobretudo, alteram realidades. Vieram contar suas experiências bem sucedidas num lugar com agenda marcada para receber a Copa do Mundo de 2014.
A convite da Aurora, gastaram parte de uma manhã de folga pra explorar o Recife na condição de visitantes comuns, numa perspectiva semelhante daqueles que virão daqui a dois anos durante o evento mais importante da história da cidade. Utilizaram transporte público, caminharam pelo vuco-vuco nevrálgico do Centro e passearam pelos armazéns do Cais José Estelita. Mesmo que superficialmente, opinaram, criticaram, sugeriram e teceram loas a uma cidade marcada por problemas recorrentes de infraestrutura – os mesmos que suscitam a mesma dúvida na população local a cada novo alagamento ou engarrafamento:“E se fosse na Copa?”.
uma Nova Délhi quase limpa e sem vacas no Pátio do Carmo
Ao invés do um quarteto, o protagonista desta reportagem seria o consultor da Unesco e arqueólogo catalão Jordi Pardo, que coordenou a cerimônia de travessia e chegada da tocha olímpica durante os jogos realizados em 1992, em Barcelona. Dono de um currículo robusto, depois da olimpíada chefiou a construção de museus e atuou como secretário da prefeitura daquela cidade. Foi a cabeça pensante de projetos de construção um grande parque e de reestruturação das principais avenidas da cidade, àquela altura já festejada como o exemplo mais bem acabado de legado de um evento para a população local. Aterrissou pela primeira vez em Pernambuco em 1999 para atuar como consultor do fracassado projeto de reforma da antiga Fábrica Tacaruna, na divisa entre Olinda e Recife, que seria transformada num centro de formação cultural. “Creio que aquilo não deu certo por causa da troca de governo. Aliás, as coisas não teriam dado certo em Barcelona se os governos rivais não resolvessem unir forças”.
Pardo aceitou de pronto o convite do passeio técnico pelo Recife, mas logo ganhou companhia dos outros três palestrantes, que se alistaram voluntariamente assim que souberam da ideia da reportagem através da organização do evento. O ônibus articulado com destino à Estação Central do Recife, no bairro de São José, estava relativamente vazio e os quatros conseguem viajar sentados. “Só fica assim por causa desse horário (por volta de 10h30). Mais cedo é um inferno”, entrega a estudante Joseane Aquino, 26 anos, que toma diariamente seis ônibus – dois para chegar até a estação Aeroporto, onde pega o metrô até a estação central para, só então, tomar um terceiro coletivo até a Boa Vista (faz o mesmo percurso na volta).
Designer e artista plástico, Ricardo Ribenboim critica a poluição visual assim o coletivo atravessa a Avenida Mascarenhas de Moraes, na Imbiribeira, sobretudo as placas comerciais. Consultor e provedor de produtos culturais de São Paulo, logo tricota alguns comentários bem-humorados com o indiano Sunil Tankha, economista contratado pelo Banco Mundial para desenvolver um estudo sobre Economia Criativa em Pernambuco (já entregue ao governo estadual). “Tá gostando?”, pergunta o estrangeiro, no banco da frente. “Não. Você conhece a expressão programa de índio?”, devolve o brasileiro. Enquanto isso, Mark Davy, um inglês expansivo e curioso, consultor de uma penca de projetos urbanísticos mundo afora e gestor da empresa-conceito Future City, não para de tirar fotos e sua expressão não deixa claro se está impressionado positiva ou negativamente.
O trânsito milagrosamente ajuda e em pouco mais de 30 minutos o veículo atravessa os barracos do Coque, despeja boa parte dos passageiros na Estação Joana Bezerra, e segue até São José, onde o grupo desce e vai andando até a Avenida Dantas Barreto. No caminho, cruzam a Rua da Concórdia, superada com rapidez em função da ausência de faixa de pedestres, e chegam até o camelódromo, onde se descortina um mundo diferente para a maioria deles. O inglês não entende o inexplicável e pergunta por que o comércio informal continua ocupando a calçada se, do outro lado da avenida, há um camelódromo construído especialmente para abrigá-lo.
Caminham até a Igreja do Carmo e apenas Sunil não tira fotos e parece indiferente ao cenário caótico e colorido da feirinha de artigos juninos que se instalou na calçada. “Parece muito com algumas ruas da Índia. É só colocar um pouco mais de gente, mais lixo e algumas vacas no meio da rua e parece que você está lá”, diz ele, que nasceu em Calcutá. Por conta do tempo curto, tomam um táxi até o outro lado da linha férrea, onde está o Cais José Estelita. Até
por desconhecimento de causa, evitam opinar com mais contundência sobre o empreendimento Novo Recife (complexo de prédios comerciais e residenciais a ser erguido no local por um consórcio) e comentam sobre a necessidade de aproveitamento dos armazéns. Ao perguntar o tamanho dos prédios – alguns com até 40 pavimentos – Mark se surpreende e reage negativamente balançando a cabeça, enquanto o indiano dá de ombros. “Que mal há nisso?”.
Nitidamente o mais impressionado, o palestrante britânico trata de separar a cidade em duas partes: a que viu enquanto esteve hospedado na Zona Sul e o outra, desvendada após o tour pelo quinhão popular. “Recife parece um lugar autêntico. Eu gosto da energia, da cor, da vitalidade. É uma cidade realmente bonita. As áreas decadentes não precisam ser derrubadas, devem ser aproveitadas para reforçar essa autenticidade. Vocês precisam cuidar desses espaços públicos”.
Cauteloso, o especialista inglês que ajudou a retomar o vigor urbano de bairros degradados na Ásia e da Eurora não propõe medidas, mas faz um alerta conceitual: “Mesmo fazendo coisas novas, vocês têm de buscar inspiração nas raízes de vocês, na sua própria história. Construir as mesmas lojas de luxo ou as mesmas construções que nós temos nos países desenvolvidos não me parece um caminho correto. Mesmo os turistas e viajantes que vierem na Copa do Mundo vão querer uma coisa diferente. Nesse sentido, o Recife parece com as cidades da Europa, com os mesmos shoppings, os mesmos prédios, sem caráter local”.
Ricardo Ribenboim, que está à frente de um projeto cultural batizado de Cidades Emocionais, aplicado no segundo semestre em Recife, São Paulo, Barcelona e Madri, também evita propor ações diretas alegando falta de aprofundamento, mas abre uma exceção ao indicar caminhos ao Bairro do Recife. “Recife pode vir a ser um ponto turístico mais qualificado. Destacaria neste sentido uma atenção maior ao plano de ocupação da Recife Antigo para um uso múltiplo de ateliês de artistas, habitação de uso familiar, galerias, gastronomia mais intensa, teatro, cinema, espaços culturais com constantes programações noturnas a fim de dar maior uso ao local reduzindo o receio por parte dos moradores da cidade e dos turistas de ser frequentado após o pôr do sol”.
Num bom português com pitadas de gírias, Sunil Tankha segue o raciocínio de Ribenboim sobre o Bairro do Recife, sugere melhorias nos mercados públicos, em áreas populares da cidade “porque não é uma coisa artificial pra gringo ver” e complementa com uma provocação direcionada aos gabinetes dos gestores. “Recife tem uma puta potencialidade. As raízes e a força do patrimônio cultural do estado também são fortes. A precariedade até pode gerar criatividade, mas o que eu vejo é uma fraqueza das políticas públicas, que podem atrapalhar o potencial da cidade. Existem recursos, mas falta vontade política de executar essas ideais de forma planejada e pôr isso em prática”.
O único a se arvorar numa proposta mais específica foi o espanhol Jordi Pardo, que pouco falou durante o passeio pelo avesso social da cidade. Pareceu sensível a um gargalo crônico da região metropolitana que piorou abruptamente desde a sua primeira visita, há 13 anos: a mobilidade urbana. “Melhorar o sistema de transporte público no Recife é uma questão fundamental. Minha opinião é que deveriam existir duas ações estruturantes: melhorar a conexão com o centro histórico e um pulso de ligação de transportes públicos para o norte e sul da cidade. A intervenção na zona histórica seria essencial, além de uma operação estruturante na travessia entre Olinda e Recife”, pontua Pardo, que diz ter encontrado “Recife melhor, com atuações importantes em curso, com mais gente, mais pessoas preparadas, mas com poucas transformações visíveis”.
São quase 13h e grupo está atrasado e faminto. Do Cais, seguem de táxi e de carona até o único shopping do Bairro do Recife, onde almoçam . A digestão é recheada com um debate técnico sobre modernização de espaços públicos numa arena montada no pátio interno do centro de compras. No briefing do evento internacional, cada um deles tinha 15 minutos pra palestrar sobre um tema discutido informalmente a manhã toda: “Como aproveitar o bom momento brasileiro para promover transformações urbanas significativas?”. A greve do Metrô do Recife acabou no dia seguinte, no último 21 de junho, quando Mark e Ricardo também deixaram a cidade.
Estamos em Obras
MobilidadeTodas as cinco obras previstas no PAC da Mobilidade estão em execução e as autoridades asseguram que todas estarão prontas antes do início da Copa do Mundo. A Prefeitura do Recife promete entregar a Via Mangue (via expressa de acesso a Zona Sul) até setembro de 2013. Já o governo do estado pretende concluir os corredores Norte/Sul (corredor exclusivo de ônibus entre Igarassu e o bairro do Derby) e Leste/Oeste (entre Derby e Camaragibe). O Ramal Cidade da Copa (via que ligará o metrô, o estádio e a BR-408) e a estação Cosme e Damião deverão estar prontos até fevereiro de 2013.
Hotéis
A empresa contratada pela organização da Copa do Mundo considera todos os leitos num raio de 130 quilômetros do Recife. Nesse perímetro, dados da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis de Pernambuco contabilizam 43 mil leitos, com previsão de outros 12 mil até 2014. “A gente tem bastante lugar, inclusive no Recife. As pessoas é que inventam muito, na minha concepção”, protesta Carlos Periquito, diretor executivo da Associação, explicando que os momentos de falta de vagas na capital ocorreram em situações atípicas.
Recife Antigo
Ao que tudo indica, as ações no Recife Antigo serão pontuais e voltadas aos dias de evento. De acordo com o secretário municipal da Copa do Mundo no Recife, Amir Schvartz, a prefeitura já estava requalificando ruas e promete melhorar a banda larga de internet para o Fun Fest (estrutura de eventos adicionais da Copa), que será montado no Marco Zero.
Alagamentos
A Prefeitura do Recife encomendou à Emlurb o Plano Diretor de Drenagem, um estudo sobre áreas de alagamento com previsão de conclusão para o segundo semestre deste ano. “O estudo vai dizer em que áreas nós deveremos atuar e se essas intervenções serão de forma paliativa ou não. Como a Copa vai ser no inverno, vamos minimizar pontos de alagamento. Nas áreas críticas e recorrentes há vários anos, poderemos utilizar caminhões de sucção ou mesmo construir piscinões que vão servir de reservatório”, admite Amir Schvartz.
Calçadas
Não há um plano específico de melhoria das calçadas. Um projeto de lei transferindo para o município a responsabilidade da manutenção das calçadas (que atualmente é dos proprietários dos imóveis) está em tramitação na Câmara Municipal do Recife. Mas não há consenso entre a prefeitura e os defensores do projeto no Legislativo. “Acho complicado. Já temos muitas calçadas públicas para cuidar e não temos recursos suficientes”, afirmou Amir Schvartz. André Duarte (texto)
Alcione Ferreira (fotos)
Fan Fest e não Fun fest…
Depois de tudo que vem acontecendo “democraticamente” no Brasil; pra mim tudo é lucro. Não há mais do que se envergonhar; nossos políticos se encarregaram de escrachar, esculachar o que ainda restava de dignidade… Agora aguardemos a abertura da bilheteria pro circo mais popular da humanidade: o futbol.
Os problemas todo mundo já conhece, as soluções? Muito já propuseram várias… A pratica? Bem, ai envolve dinheiro não é mesmo? Envolve política e é ai que eu me indigno.
Com relação à questão das calçadas, basta uma fiscalização eficiente para que os proprietários passem a cumprir com seus compromissos. Não adianta haver leis se não há fiscalização.