os reis do cadarço
Em um dos raros becos pouco movimentados do bairro de São José encontramos um rei chamado Normando Soares, 65. Na fileira de casebres humildes e desgastados pelo tempo, ele fez do número 171, a Casa do Cadarço, seu palácio. É lá que vive há 30 anos como uma realeza e brilha soberano junto ao filho mais novo, André Soares, 21, o príncipe do artigo que promoveu (e ainda promove) o sustento da família. As tiras estreitas, que servem para amarrar tênis e afins, se engendraram tanto no lar que acabaram indissociáveis de Normando. Difícil saber onde termina um e começa o outro.
Descendente de portugueses, vive apenas com o filho, formando em Teologia, mas que também atua como detetive e sonha em seguir carreira de modelo. Com o apoio do pai, já começou a enviar suas fotos para agências e capricha no visual diário, mesmo tendo como cenário uma parte esquecida da cidade. Normando não economiza elogios para o caçula. Há três meses, ele conta apenas com André para tomar conta do negócio. A esposa abandonou o barco depois que não conseguiu reaver a sala da casa, hoje depósito dos cadarços. “Ela vivia implicando. Mas isso aqui é meu ganha pão. Não abro mão. Mulher no mundo tem demais”.
André não tira a razão da mãe, mas diz que ele e o irmão acabaram se acostumando e fazendo dos cadarços parte das brincadeiras. Na época escolar, no entanto, admite que sentia vergonha do trabalho do pai. Só começou a levar os colegas em casa depois que chamou a atenção deles com um cadarço verde limão. “Todos quiseram ter um também e acharam a minha casa o máximo”. André passou a achar também.
Além da sala, corredor e teto exibem um arsenal de longos cordões. Tem coloridos, roliços, para botas e coturnos e todo tipo de sapato que precise de amarração. Para turbinar as vendas, Normando recorre a um aparelho de som amarrado com cadarços a uma das grades da entrada. Manda vir todas as peças de São Paulo e diz que não tem rivais no ramo. “Até quem é concorrente compra a mim”. Além das vendas no ponto, sai com um carrinho para comercializar em outros bairros e cidades próximas. Normando jura que tem a única casa especializada no artigo no Brasil e na América do Sul. Se é mesmo, difícil saber. O fato é que ninguém deve viver tão amarrados às tiras como ele.
Lenne Ferreira (texto e fotos)
ACHEI INTERESANTE A MATERIA , E LINDO O RAPAZ DO CADARÇO PARABENS PELO TRABALHO , JA QUE ELE QUER SER MODELO A REVISTA AURORA PODERIA VER ALGUM PATRIOCINIO ACHEI ELE BEM FOTOGENICO E SIMPATICO.