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adão, eva e o capibaribe

No hall de entrada, o tapete Casa Caiada e a escadaria que dá acesso aos quartos
A mesa pode ser ampliada para dar lugar a dez pessoas e é acompanhada pela tapeçaria de Genaro de Carvalho
As portas com veneziana facilitam a ventilação na sala de estar de dois ambientes
O terraço é um dos ambientes preferidos de Maria Digna
O salão interligado ao terraço e ao jardim é o local escolhido para as reuniões familiares
O cavalo de carrossel veio de um parque do interior de Pernambuco, presente de um dos genros
A ávore genealógica da família Cavalcanti foi pintada por Maria Carmem
O vazo foi trazido da China e a coleção de pesos de papéis foi sendo construída a partir de viagens internacionais
A foto dos pais e da irmã de Maria Digna, Lúcia Helena, ficam ao lado dos vazos Baccarat herdados da mãe
A fruteira alemã conta com a representação das quatro estações do ano
Maria Digna procura preservar o espaço verde na avenida tomada por prédios altos
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O Rio Capibaribe nasce no município de Poção, Agreste do estado, e procura o mar por 240km. Depois de cruzar, intermitente, a seca e florescer nos canaviais, finda a jornada no concreto recifense. Sentada no terraço de sua casa na Ilha do Retiro, Maria Digna Pessoa de Queiroz, 80 anos, observa o rio. Aquele é um dos seus recantos preferidos. Quando não está diante do computador, trabalhando, gosta de sentar-se entre o grande bougainville fincado no chão e as samambaias que balançam suspensas. Confessa: prefere a calma do rio à agitação do mar salgado. Mas quando se aproxima as seis da tarde, seu sossego é interrompido. Barulho de motor, buzinas. Desde que construíram a Ponte Gregório Bezerra, o trânsito é intenso na avenida que separa sua casa do Capibaribe.

Maria Digna mora nesse endereço com a família desde 1966, quando se mudaram da usina da família para lá. A atmosfera bucólica era acentuada por bois que pastavam nas margens do Capibaribe, e a vizinhança era formada por amigos. Hoje, única casa na avenida de espigões, a residência é bandeira solitária na paisagem. O prédio ao lado, quando estava em construção, instalou um bate-estaca tão forte que fez a piscina rachar. A dona da casa não ficou apenas lamentando a situação. Percebeu que era uma oportunidade de mudar o cenário, já que não usava tanto a piscina. Mandou aterrar e plantar sete árvores, uma para cada filho. “Estava precisando ter o verde de volta. Não vou ver essas árvores crescerem, mas elas vão ficar aí e alguém, um dia, vai poder desfrutar delas”.

Próximo ao terraço, um salão com biblioteca sofás e poltronas é o espaço reservado às confraternizações. “Às vezes, encontro com pessoas que eu nem conheço e me dizem que já foram muito na minha casa. Meus filhos costumavam promover diversas festas por aqui, sempre havia uma movimentação”, recorda. Um dia desses, ela e o marido, Ricardo Pessoa de Queiroz, receberam uma proposta para ven-der o imóvel. Até cogitaram a mudança para um lugar menor. “Mas onde minha família e os amigos ficariam quando viessem ao Recife?”, pergunta, justificando a desistência. Em dias de festas, os quatro quartos não comportam tanta gente. Para a comemoração dos 60 anos de casamento de Maria Digna e Ricardo, em fevereiro, os filhos, netos e bisnetos que moram fora se dividiram entre a casa dos pais e as dos dois irmãos com endereços recifenses. A matriarca adora ver a casa cheia. “Quando está todo mundo junto tenho que colocar mesas no jardim. Há algum tempo não cabemos todos ao redor da mesa de jantar”.

Entre o hall de entrada e a sala de jantar fica pendurado um quadro grande: uma árvore com frases inteiras inscritas em cada galho. É a representação da genealogia dos Cavalcanti, sobrenome original de Maria Digna. “O Adão e a Eva de Pernambuco eram Cavalcanti”, brinca. A origem familiar remonta ao século 17 e não é notada apenas no quadro. Espalhados pela casa, objetos de herança decoram os ambientes. Próxima às fotos dos pais e da irmã, uma coleção de cristais Baccarat que pertencia à mãe.

Os quadros pintados nos anos 1600 dividem o ambiente com uma fruteira em estilo romântico, com figuras que representam as quatro estações do ano. Maria Digna estava com os pais no dia em que eles a compraram. Foi na Alemanha, logo após a Segunda Guerra Mundial. Ruy e Thereza de Lima Cavalcanti encontraram com a filha na Suíça, onde a menina estudava, e de lá seguiram viagem. Quando passaram num antiquário em Munique, se apaixonaram pela peça. A dona, chorando, pediu que eles comprassem. Maria Digna lembra que a mãe hesitou, com medo da carga negativa da situação, mas acabou convencida de que iria ajudar a vendedora nos tempos difíceis do pós-guerra.

O tapete estendido diante da escada não é tão antigo assim, mas também guarda muita história. Quando conversava com uma amiga, há mais de quatro décadas, Maria Digna teve a ideia de bordar em tapetes as formas dos azulejos e cerâmicas de origem portuguesa que coloriam o Recife. Assim surgiu, em 1966, a grife Casa Caiada, com desenhos da azulejaria tradicional em ponto arraiolo. Do escritório da empresa, construído no espaço que antes servia como apoio à área da piscina, Maria Digna conta que retomou o foco no mercado nacional. Com a crise do dólar, os preços dos tapetes já não são tão atrativos para estrangeiros.

Procurando uma lembrança mais recente, a empresária diz que há muito tempo não compra objetos de decoração. “Já estou em outra fase da vida, agora eu começo a escolher peças minhas e dar aos meus filhos”, conta, acrescentando que tem um carinho especial por cada objeto exposto. A casa, ela acredita, tem uma importância fundamental como ninho da família. É ali onde eles se reúnem, colecionam recordações. No terraço com o Capibaribe à vista, revela-se impressionada com o tempo. “Os anos passam e nem percebemos”.

Fellipe Fernandes (texto)

Bernardo Dantas (fotos)

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1 comment to “adão, eva e o capibaribe”

  • Anita Meinhof, 2 de Agosto de 2012 at 13:53

    A Burguesia Fede!