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celinha do cariri: mulher multiescolha

Quarta-feira. Meio-dia. Em Boa Viagem, a área mais congestionada do Recife, céu nublado e umidade amazônica. A entrevistada abre a porta do seu apartamento no terceiro andar fresca como se o mundo estivesse a 17 graus. “Sabe o segredo? Seda, menina”, conta gargalhando, explicando que o tecido é uma segunda pele. E que a roupa para o clima do Nordeste só pode ser em tecidos nobres e naturais. “Jeans, você pode ter um. O melhor que encontrar. É prático. Mas não pertence ao nosso guarda-roupa”. Maria Célia Teles Macêdo de Albuquerque foi criada para ter muita opinião. No Crato, de onde saiu sozinha, aos 26 anos, em 1975, para desembarcar no Recife, era a mal falada. Aliás, os antigos vizinhos faziam mais que certo. Falar de Celinha é delicioso. Aqui, ela fornece artilharia para muitos anos de conversa.

Era 1975, Olinda vivia o ápice do movimento odara. Paz, amor e sexo livre. Uma moça chega do Crato. Maria Célia já tinha encontrado Celinha. “Mas ainda era matuta. Envergonhada”. Contando, parece mentira que, um dia, qualquer molécula de inibição tenha habitado seu corpo. Lá, era embaixadora da imprensa nacional nas reportagens sobre Juazeiro do Norte, a terra do Padre Cícero. “Fiz amizade com fotógrafos da extinta revista Manchete que moravam no Janga e em Olinda. Achei a energia boa e cheguei”. Celinha ri muito, não faz censura para ela e para os outros. Pontua as conversas com delicadezas, tratando o interlocutor por “meu belo ou minha gata”. Em pouco tempo, ganhou o sobrenome artístico do Cariri. “De onde carrego referências das feiras e dos romeiros”, explica a estilista, 61 anos, 1,60m, 56 kg.

Exemplifica tudo provando algumas peças. O casaco com várias padronagens é colcha de retalhos. “Não gosto quando chamam de patchwork. A técnica americana é rígida, organizada”, reclama. A junção dos pedaços de estampas no Nordeste do Brasil “é bem louquinha”. Celinha segue a tradição, mas conseguiu criar uma assinatura na forma como reúne desenhos e cores díspares, improváveis. Criando um quadro novo e equilibrado. “Menino, eu abalo”, assume, com algum deboche. Os tecidos eleitos também são outra marca. “Uso algodão e seda pura. São tramas que te vestem, mas não empacotam. ‘Tás entendendo?’”, pergunta, com a resposta já pronta.

A conversa é interrompida pela chegada do filho, Chico Januário — “Assim mesmo. Chico — e da nora. “Um menino centrado, trabalha com ciências náuticas. Virou meus pés e mãos”. Ele tornou-se base financeira de Celinha. O apartamento amplo e bem localizado onde vive foi presente dele. Naquele dia, a conversa saiu da moda várias vezes porque Chico estava de mudança para o Rio. “Estou morta, belo”, dramatiza sem deixar de gargalhar. Ela sabe que nossa conversa deveria falar de roupa e, rápida, percebe um gancho. “Sabia que nunca sobrou dinheiro com moda?”. E segue. “Aliás, alguém por aqui já?”. Embora reconheça a sorte de sempre ter vivivo de moda. “Minha clientela é muito fiel. Isso conta muito. Comprei casa e carro”. Nas melhores escolas, onde matriculou o filho, trocava a mensalidade por peças confeccionadas em casa com as diretoras. “No Cariri é assim. Romeiros se viram com o que têm. Desde que tenham um ofício. Gente que vai rezar para o Padre Cívero e, se não surge dinheiro para voltar, faz cerâmica, bruxa de pano, cesta de palha para sobreviver por lá mesmo. Por isso, coleciono o artesanato dali e o jeito de viver também”, ensina.

A gargalhada na época do Amaro Branco
Performance no ateliê do Pina
Em 1982, a feminista Sônia Corrêa virou modelo
Os seios de criança pintados por George Barbosa
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Medo é estágio emocional pouco compreendido para Celinha. Criada pelos avós paternos, Adelyde e Otácílio Macêdo, alta aristocracia do Crato, ela podia fazer quase tudo. “Dela veio a noção de beleza, proporção. Aprendi que costura é arquitetar uma roupa no corpo. Dizer que a modelagem é 42 ou 44 é sujeito inexistente. Você precisa construir algo para aquele corpo”, argumenta. Otacílio era médico, formado pela Universidade Federal da Bahia. Um homem cultíssimo que perdeu a primeira mulher e caiu em desgosto pela medicina. “Virou jornalista. Fez a melhor e mais completa entrevista com Lampião”. As posses da família Macêdo foram liquidadas por ele em mesas de carteado. Quando partiu, Maria Célia já estava pronta para a vida. Na escola de freiras, aprendeu trabalhos manuais, também tinha vocação para oradora e podia interpretar qualquer personagem nos palcos. “Sou a mulher multiescolha”.

Na época, já demonstrava o talento para frequentar todas as tribos. Artistas como o poeta Patativa do Assaré e a ceramista Ciça do Barro Cru faziam parte do cotidiano dela. Embora participasse de forma mais intensa da vanguarda. “Jefferson Albuquerque, meu primeiro marido, cresceu comigo. Fez arquitetura na UnB e virou diretor de arte. Assinou grandes produções, como o filme Eles não usam black-tie (1981)”. Ela casou mais quatro vezes. “E nunca deixamos de ser amigos. Acabo de assinar o figurino do longa Aos ventos que virão, de Hermano Penna, por indicação dele.

No Crato, os dois recebiam gente do país inteiro. “Como faziam, antes, os meus avós. Carlos Lacerda e Ademar de Barros se hospedavam na mansão com móveis sob medida”. Ela e Jefferson abrigavam viajantes como a jornalista Monica Serino (hoje, diretora de redação da Marie Claire), em passagem pelo Cariri. “Ela me ensinou a comer arroz integral. Depois virei macrobiótica”. A festa acabou no Crato para reiniciar, ainda maior, no Recife e adjacências. “Antes de morar no Amaro Branco, perto da Sé, em Olinda, a primeira parada foi o Janga, na casa de conhecidos. Em seguida, fui morar, sozinha, nos fundos de uma agência de publicidade, em Olinda”. Durante uma conversa, dois amigos, que fotografavam o Projeto Suape, em 1978, disseram que as praias no Litoral Sul eram ótimas. “Leva minha mala pro carro”. Ficou em Gaibu por algum tempo. “Chico Januário nasceu. Seu pai foi um namoro rápido”. Para criá-lo, sozinha, pegava três ônibus, do Cabo até Olinda, com sacolas com suas criações de um lado e o bebê do outro. Tanto exercício pode explicar o corpo ótimo aos 61. “Os peitos são lindos, de criança. Mas é genética. Minha mãe, 86, tem um par tão bom quanto”, cita dona Nilva e mostra uma tela de George Barbosa. “Aqueles peitinhos são meus. Pedi a ele para eternizar, antes que despencassem”.

O receio de um futuro chega a ser divertido. O dia seguinte, na mente tranquila de Celinha, é surreal. “Nunca tive. Nem na época em que eu estava na moda e joguei tudo pra cima”. Em 1996, clientes endinheiradas queriam seus modelos. Ela nem avisou que estava de mudança para Brasília. “Saí em busca do lado espiritual daquele lugar. Sempre estive envolvida com os ensinamentos de Osho, o Santo Daime, o tarô e o I-Ching”Na volta, montou o Ateliê das Venturas, com Xuruca Pacheco, por quatro anos.

Celinha parece uma alucinação. Mas é toda de capricórnio. “Nasci no Dia de Reis, 6 de janeiro”. Disciplina e rigor são bem óbvios, mesmo quando mente, avisando que sua sala de estar-ateliê está um caos. Recebe os clientes ali, onde também estoca tecidos e aviamentos. Leva uma semana para concluir uma roupa. “Não consigo produzir em série. Os clientes que me procuram acham um charme provar a peça, esperar o resultado”. Um vestido de algodão fica perto dos R$ 200. Uma roupa de noite bem elaborada sai por R$ 2.800. Talvez seja a estilista com um dos melhores acervos de imagem no país. Abre os álbuns antigos para mostrar seus desfiles e vem a melhor parte. O mais divertido deles aconteceu no casarão do Fortim, em Olinda, só com amigos, em junho de 1982. O produtor Eduardo Homem, a jornalista Lydia Barros e a feminista Sonia Corrêa entre os modelos. Mais performance e teatro que passarela. “Não existia coleção de verão ou inverno. A gente fazia se tivesse com vontade”. E produzia apenas do seu jeito, com modelagem orgânica, para deixar os movimentos livres, utilizando tecidos naturais. “Usei cada peça feita por Celinha até os fiapos. Ela vestiu uma geração inteira de Olinda com peças únicas, exclusivas”, elogia a artista plástica Iza do Amparo, que veio da Bahia na mesma época em que Celinha chegava do Cariri.

Do show favorito com suas roupas, não tem uma foto. “Foi há 30 anos, na Ribeira”. De novo, um casting inteiro com amigos. Desfile mesmo, com estrutura de modelos, iluminação, styling, começou a fazer a partir do Salão da Moda e Fenearte. “Desfilei por várias edições. Mas não sou muito cotada para outros eventos de moda. Primeiro, porque não suporto gente montada, artificial. Se vejo alguém fazendo muito tipo, já solto um ‘valha-me’ na mesma hora”. A expressão fashion, para Celinha, foi a pior invenção dos últimos anos. “Qualquer estranhice entra para essa categoria. Basta saber promover. Não faço isso, mas sou referência. Queiram ou não alguns fashionistas”.

Outro lema é abertura de mercado para todos. “Por aqui, as semanas de moda usam poucas modelos negras. Já fiz desfiles inteiros só com modelos negras”, recorda. A falta de articulação dos criadores é outra briga antiga. “Quando decidem se juntar é só para fazer reunião, a coisa que mais detesto. O Ministério da Cultura fez várias no Recife”. Na sobra de tempo, ela prefere fazer pontas como atriz. Na peça Assombrações do Recife velho ou no filme Deserto feliz.

Por Phelipe Rodrigues (texto) e Alcione Ferreira (fotos)

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7 comments to “celinha do cariri: mulher multiescolha”

  • Três – Juntando Retalhos « La Reina Madre Denize Barros, 3 de Junho de 2012 at 22:27

    [...] bem como enumerar. Nem vou tentar. Hoje saiu uma matéria contando um pouco da história dela na Revista Aurora (encartada no Diário de Pernambuco) e vale a pena ler (clica aqui). É daquelas criaturas que [...]

  • Sybelle, 4 de Junho de 2012 at 19:18

    Muito bom trabalho! fidelizou à imagem de Celinha do Cariri! Mulher incrível e admirável.. Além de inteligente, batalhadora, mãe é uma ótima pessoa!

  • Fernanda Souza Nascimento, 5 de Junho de 2012 at 2:04

    Celinha do Cariri…todas as historias acima estao descristas com perfeição e simpatia, nao haveria outra forma de descrever essa mulher Guerreira, Justa e Verdadeira…Celinha do Cariri….

  • maria dos prazeres, 5 de Junho de 2012 at 10:04

    Celinha, Celinha! Que saudade! Como estive alegre, usando tuas saias de seda, rodadas, dançando nas Noites Olindenses. Roupas maravilhosas, esvoaçantes,
    Levarei para sempre comigo o eco de tuas gargalhadas, do Alto de Oh Linda!

  • Mauro Lira, 12 de Junho de 2012 at 15:08

    Que Lindo Cariri, sou seu fã, bjs

  • Sandra Parmera Selva, 15 de Junho de 2012 at 21:09

    Celinha, que conhecí pouco mais de 10 anos, nunca poderia ter sido descrita diferente. Essa mulher bem humorada, batalhadora, de uma criatividade sem medidas, merece tudo que foi dito e mto mais.
    Algumas histórias não conhecia mas o privilégio de ter sido sua vizinha na rua Jeremias Bastos, enriqueceu e muito minha visão da vida!
    Êta mulher danada! e sua gargalhada…só poucos são ~tão espontãneos !
    Um bju Celinha e um bom São João!

  • Felipe, 20 de Junho de 2012 at 8:56

    Que mulher admiravel!!! Um icone.
    Dona do seu destino, desbravou todos os caminhos
    atraves de sua personalidade tão impar.
    Gostaria de poder conhecer seu acervo de imagens de moda,
    tenho certeza que é incrivelmente maravilhoso e referencial.
    Um grande abraço do seu mais novo admirador.