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a noiva que perdeu o vestido

 

O voo para casa estava marcado: 6h25. Marselha, nossa personagem, 31 anos, branca, cabelos negros, compridos e parcos, voltaria ao Recife após um mês em Petrolina, onde moram Agreílson,  seu maior protetor na infância, e Juliana, sua cópia em cor de jambo escuro. A viagem teve dois propósitos. O primeiro, declarado a todos como oficial, foi acompanhar o nascimento do sobrinho, Ângelo Marcos, 50 cm, 3,6 kg, que deu ao mundo a primeira graça de seu grito às 12h30 do dia 4 de abril de 2012. O segundo, em segredo, foi contar ao pai, um policial civil no aguardo da aposentadoria, costumeiramente rígido e gélido, que ele ganharia um genro português, lavrado em cartório e com firma reconhecida, antes sequer de conhecê-lo. Cumpriu ambos.

Acompanhou a irmã em casa, ajudando no resguardo – no que obteve tranquilo sucesso. Comunicou que cruzaria os mares até o altar, missão mais espinhosa – no que obteve surpresa no princípio e aprovação no porvir. Após o pai abrir um sorriso, lembrou-lhe a tradição antiga: “se a família da noiva não arcaria com os custos da festa, que ao menos ajudasse com o vestido”. Um novo sorriso bastou e Marselha comprou o tecido e encomendou à costureira. O resultado foi melhor que o sonho. Até o joelho, todo em renda francesa, forrado em tafetá. Branco, com pequenos detalhes prateados. Para o caminho de volta, foi guardado na véspera, com cuidado. Decisão acertada, já que o destino e o cansaço ignoraram o despertador e Marselha saiu da cama atrasada. Chegou ao aeroporto quando o comissário já procurava, preocupado, pelo dono da última vaga do avião.

Aterrissou por volta das oito da manhã. Munida de uma mala preta já velha, desfiando e com rodinhas quebradas, duas sacolas de mão e um gosto emocionado por bebês, tomou um táxi até a Avenida Pinheiros, bairro da Imbiribeira, onde vivia em uma casinha de três cômodos aos fundos da morada de Kyrtis, ex-vizinha de porta que virou sua segunda mãe ainda na infância, quando a primeira faleceu. A corrida foi rápida. Certificando-se que não esquecia nada dentro do carro, pagou o serviço e, do portão, avistou Pedrinho, 1 ano e 3 meses, neto de Kyrtis. Com as sacolas em punho, correu para dentro e tratou de mimá-lo. A conversa com Kyrtis se estendeu até o supermercado, contou cada detalhe da estada no Sertão. Na volta das compras, claro, foi mostrar o vestido.
- Cadê minha mala preta?
- Que mala preta? Não vi mala preta nenhuma, você chegou só com aquelas duas ali.

Desespero. “Tenho certeza que tirei do táxi”, repetia Marselha, aos prantos. Começou uma peregrinação em busca do branco. Logo ao sair na rua, olhou para todos os lados na esperança de que a mala estivesse repousando em um canto qualquer. Contou sua história aos garis que varriam as redondezas. Lembrou que, no rodízio da coleta de lixo, aquele era dia de passar o caminhão e procurou os responsáveis. Foi a um depósito de reciclados. Falou com cada pessoa que passava em seu caminho. Ninguém tinha visto nada. A todos Marselha dava seu número de telefone e dizia que era vizinha de Inês, agente de saúde comunitária bastante conhecida no bairro. Após duas horas vagando sob o sol, tudo que ela havia conseguido era uma interminável coleção de promessas: seria avisada caso surgisse notícia.

Foi em casa tomar um banho e almoçar e, à tarde, retomou a missão. Andou várias horas. As pessoas que encontrava no caminho já sabiam do seu drama e, sensibilizadas, perguntavam pelo desfecho. Dessa vez, encontrou uma informação. Numa mesa de apostas de jogo do bicho, uma mulher havia visto uma catadora de material reciclado passar com uma mala preta no bagageiro de uma bicicleta. Sem nenhuma dica sobre como encontrá-la, Marselha voltou mais uma vez ao lar.

Cerca de uma hora depois, já desesperançada, foi surpreendida por gritos de Inês, a vizinha, que lhe chamava. Estava acompanhada de um casal, que permaneceu anônimo. Ele, aparentes 20 anos, moreno, 1m70 e cabelo curto. Ela, uns 25, um problema no olho e cabelos pintados desbotando. A menina tinha visto a catadora. O menino sabia onde ela morava. Os três pegaram um ônibus e foram até a comunidade Dancing Days, no Ipsep. Desceram da condução ao fim de uma rua calçada e entraram por becos e ruelas até a casa da suposta catadora. “Não é ela”, a menina disse prontamente quando a moradora surgiu na janela. Tentaram em outra rua, encontraram uma casa aberta e sem ninguém dentro. As paredes eram feitas de madeira com remendos de folhas de metal. Encostada, uma bicicleta com bagageiro na frente. Dentro da casa, poucos móveis. Uma cama de solteiro, um guarda-roupa sem portas, roupas espalhadas no chão e, sobre um banquinho, uma mamadeira pela metade. Receosa, Marselha recuou da invasão e decidiu esperar do lado de fora.

“A mulher da mala!”, gritou uma moça que chegava acompanhada de mais quatro ou cinco pessoas. Não continha a alegria por ter reconhecido o rosto que estampava as fotos de dentro da mala que encontrou abandonada na calçada de uma casa. “A senhora pode ver, está tudo aí dentro, não peguei nada. Eu sou honesta, pode ver. Fiquei preocupada quando vi o vestido, você vai casar…”, dizia rápido.

Mais feliz estava Marselha. Após ir atrás da mala, foi finalmente atrás do noivo. No início de de junho, voou até Portugal para encontrar Carlos, com quem casou no dia 19. De vestido branco, com pequenos detalhes prateados, até o joelho, todo em renda francesa e forrado em tafetá.

 

PS. Sim, sim. É tudo verdade.

 

Por Mano Ferreira (texto) e Greg (arte)

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